Os Meus Versos Mais Íntimos

  • quinta-feira, 24 de novembro de 2011
  • Felipe D´Castro



  • Crês! Ninguém te iludiu, oh, formidável
    Anjo de minha lúcida quimera...
    Quando nus, nos amamos quais panteras
    Vi o teu do meu sangue inseparável!

    Disse que sou o Deus que a ti espera,
    O anjo, que nesta terra miserável
    Profundissimamente inevitável
    Vê o ato de atacar-te como uma fera.

    Tragar-te-ia, oh, como a um cigarro,
    E amar-te-ia até o último escarro
    Desta boca maldita que apedreja...

    Mas que nenhuma pedra toca a chaga
    De teu corpo moreno que me afaga
    E de tua boca serva que me beija.

    O Remédio

  • Mano

  • As janelas do quarto estavam fechadas. Chovia muito. Dali para frente, com a queda de Rose Camen, o vocalista da banda, eu não sabia o que ia acontecer ao certo. Tudo era nebuloso. O futuro de todos e de tudo era incerto. Tudo miragem. Meu ídolo acabara de morrer. A cocaína tinha feito aquilo com Camen, um jovem músico. Estava cotado para o melhor artista do ano. Eu me recolhi aos cadernos de partituras que tinha ganhado do meu avô, mestre Joab. Era aquilo mesmo, muita chuva. Trovões. Relâmpagos. Árvores caindo pela rua. Um cenário apocalíptico acontecendo na minha cara. E eu? Eu ia lendo um a um, os cadernos. Queria me aproximar de Camen pela leitura. Meu astro, meu ídolo, tudo o que ele era para mim esvoaçou-se em farinha branca, dentro de seu nariz. Overdose. Overdose maldita. Artistas não deveriam ter overdose pois isso é doença de mortal. Dose de nada deveria matar. Eu queria crer que se consumia, era porque seria necessário uma dedicação mecânica causada pela droga para acompanhar o trabalho. O velho Rose caiu nessa. O velho Rose era tão inteligente.
           Por um momento, pensei estar ao lado do cara, representando, tocando, fazendo as notas voarem por cima da platéia louca. Mas o cara estava morto. O giz que ele usava, a farinha que cheirava, o sexo precário com vadias precárias. Tudo contribuiu para que eu ficasse sozinho, sem Camen. Os cadernos eram tantos, as fantasias eram tantas, os dedos se mexiam, alvoroçados, procuravam uma corda para se arrastarem. A corda era da minha guitarra, tudo automático. Os moldes em pinho, as cordas de nylon, a última corda desafinada. A vida tava perdendo o sentido, não tinha o porquê de cordas fazerem mais sucesso.
         A chuva não dava trégua. Era uma guerra com a calha. Mamãe nem se atrevia vir aqui no meu quarto, que fica no sótão. Ela viu a notícia pela manhã. Viu quando o meu Deus saiu dentro de um caixão do prédio da prefeitura de Los Angeles, subiu com a ajuda de homens num carro de bombeiros, e entrou desfilando em uma das muitas avenidas de lá. Nem lembro qual. Não tinha olhos para avenidas, ruas, praças. Los Angeles não podia ter feito isso comigo. Tirasse o meu pai, minha mãe, meu irmão. Mas os cadernos...ah, os cadernos! Não param de me ler, os cadernos. As partituras partidas ao meio pelas lágrimas de desespero que caíam. Borrou tudo, tudo. Depois de um tempo, olhando pela janela, a chuva batia forte. Ainda vi quando um galho acertou a janela. O vidro trincou. Eu caí para trás. Caí chorando. Chorando.
         Chorava muito, agoniado. Tragam de volta a minha divindade. Tragam de volta o meu gosto pela vida, a minha vida, o meu quarto. Agora eu preciso me recompor. Já foi, já era. Camen, me ajude a entender esse “ré” trespassando uma clave de “sol”. Que doença será essa? Rose, você era só um cantor. Você não sabia afinar. Você nem sabia tocar nada. O que será que está acontecendo? Porque tantas ambulâncias? Não estou ficando louco, me soltem.
        Para onde estão me levando? Nossa, as paredes estão ficando brancas. O chão é macio e tudo cheira a novo. Consigo ler. As notas passam pelos braços dos enfermeiros. Mamãe está ali na cadeira. Mas está chorando. Não entendo essa gente. Chora por tudo. ME LARGUEM!
        Dei um sopapo no primeiro enfermeiro. Ele recuou, mas logo precipitou-se com uma seringa pra cima de mim. Todos gritavam. O maior escarcéu. Deviam entender o meu sofrimento. O meu herói tinha sido massacrado por farinha e nem por isso eu estava com ele. Ele precisou de mim e eu não puder dar aconchego, um ombro amigo.
        Seguro em uma barra branca, dei de cara com a parede fofa. Logo senti uns estalos no meu peito. Meu corpo se contraía, se retraía. Sempre isso. Um homem branco de branco, Colocava duas chapas sobre o meu peito. Um sujeito de lilás balançava uma das mãos na frente dos meus olhos. Ainda vi quando um gritou:” Nova parada cardíaca!”.
        Caí no meio das notas. Os cadernos estavam lá, brincando de ciranda. Iam rodando, rodando, rodando junto comigo. Nos demos as mãos e começamos a rodar, cada nota grunhido o seu som. Algumas passavam brigando e formando solos. Eu ia sorrindo, sorrindo,gostando, até ter um novo desprazer. Meu peito ardido. As chapas queimavam. Cada vez que o branco de branco encostava aquilo em mim, pegava fogo.
        Eu não via mais a chuva. Fiquei um tempinho esperando. O som dos pássaros invadia a pequena sala, onde eu me encontrava deitado. Quase esquecera do Camen. Nem ganhou o disco de ouro, nem o de platina, nem o de farinha. Alguns médicos  me rodeavam. Mamãe chorando numa poltrona, eu muito suado. Eu sentia o sangue minando pelo nariz. Eu sentia o sangue passando pela boca, caindo pelo pescoço, chegando ao peito, já empapado de sangue.
        A chuva ainda estava caindo. Chuva bruta. Chuva forte
        O meu quarto não parecia mais estar ali. A lua vinha ganhando forma de pêra em vez de de lua mesmo. Minhas mãos tremiam. A coragem bateu. Tudo iluminado. Estava suando muito novamente. Mamãe nem tinha subido. A chuva era tão forte que tinha entrado e alagado todo o sótão. Foi tudo questão de tempo. A dose, a seringa, a chapa, o doutor, a mamãe, Camen.
         Sem nenhum motivo aparente, dei de ombros e voltei aos cadernos. O remédio estava fazendo efeito.

    Sob os lençóis

  • quarta-feira, 23 de novembro de 2011
  • Felipe D´Castro


  • Bem olhava pra mim a minha dama...
    Nós dois, entre os lençóis, por sob as luzes,
    E nossas pernas, como duas cruzes,
    Confusas, misturadas, já em chamas.

    Impiedosamente a boca chama,
    E, sôfrego, reparo na saúde
    De seus lábios carnudos, rogando: use!
    E somos dois famintos sobre a cama...

    Mãos minhas vão comendo aquela imagem
    E a língua a requerer a paisagem
    E os olhos a tocar o humano inferno!

    Toco os lençóis de seda salientes
    Sobre as coxas da moça que já sente
    O pulsar do meu músculo mais fraterno!

    A LUA EM TAMBAÚ

  • Mano
  •     


             A praia à noite é tão fria, dizia. E os dois caminhavam pela areia de Tambaú. Passava das 11 da noite, quando ele a olhou de baixo para cima,sorriu. Ela fez uma cara de curiosidade e deixou escapar um: “o que foi?”.”Você está tão diferente, Dani!”. Ela parou um pouco. Esperou uma brisa leve passar por ali. A brisa veio branda e rasgou-se aos cílios da moça. O rapaz continuava a observar sua silhueta. Pararam embaixo de uma barcaça que estava na areia.
         Ela olhou para ele e sorriu. Ele fingindo não entender o que ela queria. Queria amor, queria abraço, queria sexo. Ele atreveu-se, começou a desabotoar o short dela. Ela sorria mais ainda, e mordia os lábios. Ele agora baixava o zíper, duro com o tempo e a maresia de suas caminhadas noturnas. Agora ela levantou-se, ainda sorrindo e mordendo os lábios, e baixou completamente o short.
          Ele olhava meio que espantado para todas as reações dela. Algo novo estava começando em sua vida. Estava deixando a meninice de lado. Estava abrindo a sua vida para o amor. Ficou de pé, ela massageando em cima de seu short. Ele fechou os olhos e ensaiou um gemido baixinho.Ela agora estava só de calcinha. A praia estava deserta. Ele sentou-se, e ela continuava a massagem.
         Ela parou. Levantou a blusa num gesto rápido, o sutiã rosa. Puxou o rapaz para si e beijou-o loucamente. A lua filmava a cena que acontecia embaixo da barcaça erguida. Nenhum barulho na rua. Todos dormiam, ou fingiam estar dormindo. Tambaú apenas abrigava os dois. Ele passou a mão pela cintura dela. Atracaram-se, vestidos, e rolaram pela areia debaixo da
    barcaça. A vontade de ambos, a sede pela transa energizava o local. A barcaça não fazia um só movimento. Ela agora, enquanto beijava-o, desabotoava o sutiã por trás. Ele na ansiedade de ver o que tinha por baixo da peça. Ela se apressando mas o botão era teimoso. Até que o sutiã soltou-se, e os seus lindos seios ficaram à mostra. Seios de menina mulher, como que crescidos a pouco. Ele pegou-os com as mãos, apalpou-os. Ela fechando os olhos e gemendo baixinho.
          O calor que aquela cena causava era tremendo. O mormaço fez com que suassem à beira da praia. O mar ia e vinha ver o que estava acontecendo. Ele já havia tirado o short. Ela em cima dele, ralando o seu corpo no dele. Os dois encaixados. Ela ficou de pé, soltou alguns beijinhos para ele, e baixou a calcinha. Ele olhou, foi até lá, ensaiou um beijo. Cheirou. Tudo era novo ali. Passou os seus lábios nos lábios dela. E ela mordia os lábios que ele não beijava. Gemia alto, gemia, gemia, gemia. Ele tirou a cueca. Ficou de pé. Beijaram-se loucamente. Ela agachou-se, pegou o membro já excitado, e colocou-o na boca. Ele gemeu alto, gemeu, gemeu um gemido que nunca escutou alguém mencionar nem nas cenas mais picantes. Ela ia e vinha, com a boca aberta.
           Pegaram-se um em cima do outro, ambos gemendo. Ela fazia um movimento para frente e para trás e ele também. Iam amando-se pelas 2 da manhã, a lua filmando, o mar olhando. 
           
    Quando deram fé, o sol já havia se feito. Estavam nus embaixo da barcaça. Os pescadores passavam e olhavam. Os velhos também fitavam. Tudo ali era novo para ele. Ela não, ela já sabia de muita coisa. Ela havia mesmo crescido e mudado. Ele não notara isso até aquela noite. Daquele dia em diante, ele quereria muitas barcaças, ah se quereria...

    Sexo num ciclo vicioso

  • segunda-feira, 21 de novembro de 2011
  • Mano
  • Acordei com as batidas na porta do meu apartamento. Admirei-me pois o porteiro deixou que subisse. Na certa era conhecido.Mandei um “Já vai” lá de dentro, do quarto. Fui devagarinho até a porta, olhei para baixo. Vi uma sombra de pés por entre o vão que fica, entre a porta e o chão. Pés de alguém que queria falar comigo, claro. Olhei pelo olho mágico, aflita. Para quê? Era só o meu primo Henrique!
         Abri a porta, toda animada. Me atirei num longo abraço apertado em cima de Henrique. Ele sorrindo, meio suado. Vinha caminhando desde a casa de Tia Ninha até aqui. Henrique era grande, forte. Muito mulherengo, eu sabia. Mas a que devia essa visita? Dei-lhe um beijo no rosto, um cheiro no pescoço, que homem cheiroso. Ele nada ainda tinha falado.
        Entrou. Esticou os braços, com um buquê de flores, na minha direção:
    - É que faz tanto tempo que a gente não se vê, Luiza. Eu precisava olhar para você, saber como você está. Essas coisas. Tome, isso é teu!
    - Obrigada, primo. Eu até não acreditei quando vi você pelo olho mágico. É que o porteiro nem avisou,nem nada.
    - Seu Pedro? Ah, eu conheço seu Pedro assim,ó. Pra ele, eu já sou de casa. Mas, eu tou te importunando, prima?
    - Que é isso, primo. Faz tanto tempo que a gente não se vê. Eu fico até feliz com a sua visita. Você bebe algo?
    - Eu aceito uma cerveja.
    - Espera só um segundo, eu vou pegar na geladeira.
           Saí da sala e deixei Henrique sentado no sofá. Ele admirava a casa, olhava para tudo. Abri a porta da geladeira, abri o congelador, tirei uma lata de cerveja de dentro. Quando ia fechando a geladeira, olhei pelo espelho que tem na caixa de legumes e notei que eu estava só de calcinha e blusa. Que vergonha! A minha alegria fora tanta ao ver Henrique que eu tinha até esquecido de pôr uma roupa decente. Mas agora era tarde! Tinha de levar a cerveja até ele. Parece até que ele não se importava com aquilo, agia tão naturalmente.
         Cheguei na sala, Henrique estava de pé, uma das mãos metidas no bolso, a outra segurava um porta-retratos onde havia uma foto minha com ele, que ainda estava nas recordações:
    - Quanto tempo,hein,essa foto, priminha?
    - É. Há anos que ela está aí.
    - Cinco anos, cinco carnavais, cinco natais...
    - É, muito tempo,não acha?
    - Muito mesmo. Você mudou tanto.
          Ah, eu tinha mudado mesmo. Mudei meus gostos, minhas preferências, mudei de vida. Henrique sentiu isso. Olhou-me um pouco tempo, depois sentou-se. Alguns segundos se passaram e ele nem aí pra mim. Eu realmente estava querendo algo com aquele menino ali mesmo, afinal, nem todo dia o destino manda um homem daquele passear no meu apê. Ele lá, com aquela bermuda cinza e a camiseta preta. Eu só de blusinha e calcinha. A certa altura, ofereci outra bebida:
    - Outra cerveja,primo?
    - Acho que essa está de bom tamanho.
    - Não me faça uma desfeita dessa,rapaz.
    - Você sabe como eu fico quando eu bebo.
    - Você ta com medo de não resistir a mim,não é?
          Agora ele entendia o que realmente eu queria. Acho que nós dois queríamos. Aquela visita surpresa do meu primo não era assim, a toa. Se ele estava ali, trazendo rosas, e com aquela desculpinha esfarrapada. Olhei para Henrique com uma cara de safadesa que só eu sei fazer, e comecei:
    - Calor,não é?
    - Realmente, o tempo está quente.
    - É. Eu não consigo ficar assim. Sou muito calorenta.
        Tirei a calcinha. Sim, tirei. Ele ficou me olhando algum tempo, depois eu fui até ele, e dei-lhe um beijo no rosto. Sentei do lado dele, no sofá. E fiquei olhando para ele, esperando algum tipo de reação. Eu sentia que ele estava doido para me abocanhar, mas alguma coisa o impedia, talvez algum tipo de valor moral familiar, não sei. Ele era galinha, mas com família não mexia. Não estava nem aí para isso. Queria mesmo aquele cara:
    - Então...
    - Eu não tou entendendo, prima.
    - Claro que está.
    - Estou. Mas não sei se é certo
    - Claro que é certo. Eu estou doida por você e você aí,babando por mim. O que é que tem de tão errado nisso?
    - Você tem razão.
           Ui! Eu estava coberta de razão. Subi nele, sentei no colo. Fui logo beijando. Ele com a mão no meu bumbum, eu dando aqueles gemidinhos baixinhos e ao mesmo tempo o beijando.Eu tinha muito amor pra dar e ele muito tesão pra comer. Comecei a pular um pouquinho no colo dele. Como Henrique era másculo. Ele começou a tirar a camiseta, eu me ajeitando no colo. O calor era grande, estava derretendo. Tirei minha blusa. Henrique me babou toda. Eu gemia, e queria mais. Ele também. Fomos querendo um ao outro pelas horas.
          Ele levantou-se, brusco. Uh, sexo selvagem, pensei. Tirou o short, a cueca. Tapou a minha boca com a mão. Que gostoso. Ficamos ali, no sofá, por vários minutos;por várias posições;por vários prazeres. Até que ele olhou para o relógio, viu a hora:
    - Minha nossa senhora, Luiza, eu estou atrasado.
    - não, fica mais um pouco.
    - Não dá. Se eu não for agora pra casa, a Silvana vai descobrir.
    - Quem é Silvana?
    - Ninguém. Deixa pra lá.
          Eu fiz força para não chorar. Nada daquilo significava pra ele. Era apenas sexo, sexo. Eu também encarava como sexo, sexo. Mas ainda que fosse apenas sexo, era entre nós dois, eu e Henrique. Ele levantou-se, colocou toda a roupa, o cabelo arrepiado. Meu Henrique indo embora.
        Fui tentar dormir. Relaxar. Aquilo ali estava tão recente, Henrique saiu muito apressado depois de anos sem me ver.  Tudo bem. Deitei na cama, e agarrei no sono, sono bom...
        Acordei com as batidas na porta do meu apartamento. Admirei-me pois o porteiro deixou que subisse. Na certa era conhecido.Mandei um “Já vai” lá de dentro, do quarto. Fui devagarinho até a porta, olhei para baixo. Vi uma sombra de pés por entre o vão que fica, entre a porta e o chão. Pés de alguém que queria falar comigo, claro. Olhei pelo olho mágico, aflita. Para quê? Era só o porteiro, seu Pedro!

    Amor #1

  • domingo, 20 de novembro de 2011
  • Felipe D´Castro

  • à Maria Isabelle

    Há tempos de gelo no coração dum homem!
    Não te preocupes, bela de olhos de ressaca,
    Que amor é assim, ora! Amor finge que some,
    Que falece, que se despede, que se acaba!

    Ah, quantas vezes meu coração teve fome!
    Quantas vezes, meu Deus, esta friíssima estaca
    Que o Amor forja às sombras teve o meu nome,
    E agora com o teu nome, bela, ela te ataca?

    Acostuma-te, pois, minha amiga, a esta trama,
    Ainda que fria, que amnésica, ainda que dor,
    Porque o pior que há no amor é ser aquele que ama.

    Dir-te-ia qualquer mago, mulher de belo olhar,
    Que esperasses mais um pouco pelo teu amor
    Pois é frio por ora, mas não se vive sem amar.

    Mudanças

  • sábado, 19 de novembro de 2011
  • Mano



  • Eu mudei de ramo
    Eu mudei de rima
    Eu mudei de mãos
    Eu mudei de vida

    Mãos de patrões
    Correm meus lábios
    Enquanto canções
    Cobrem-me os lábios.

    Eu mudei de firma
    Eu mudei de forma
    Eu mudei de minha
    Para deles

    Tudo deles
    Cabeça, corpo, alma
    Eu mudei de alvoroço
    Para calma

    Mudei de cama
    Mudei de lençol
    Mudei de modelo
    Para jogador de futebol

    Mas não mudei de gente
    Para bicho
    Se outrora mudar,
    Mudo pra lixo!

    Lânguida Dama

  • Felipe D´Castro


  • Chegou. Os tornozelos sempre à amostra.
    Lábios de carne pura, brancos dentes,
    Um batom vermelho, inconseqüente,
    Nos olhos a luxúria que se mostra...

    Veio. E as veias minhas todas tortas
    A pulsarem emaranhadamente
    Sob minha pele úmida e morrente
    Como um prisioneiro a espreitar a porta...

    Sentou. E penetrou-me uma poesia
    De versos concretos como nas máquinas
    E nos trens, e nas tabernas vazias...

    Suou. Vai e vem enfurecido tens...
    E ante tua performance acrobática
    Esqueço de versos, tabernas e trens.


    Doutor Cirilo

  • Mano
  •      Estava na mesma reunião estúpida do trabalho. Aquela monotonia, papéis na minha mesa a fim de serem lidos e assinados. Eu sempre fui o cara que despachava a carga para fora do país. Consegui esse emprego por intermédio de papai, Augusto Noberto Lopes, a quem o doutor Cirilo Guedes sempre teve paixão. Papai era um cara honesto, trabalhador. Eu nada tive de reclamar do meu pai, nesse pouco de vida em que passamos juntos. Dos meus 17 até os 22, papai viveu ao meu lado. Quando ele morreu tudo desabou. Quase entro em uma depressão profunda. Mas o doutor Cirilo me acolheu em sua própria casa, me deu comida, me deu uma bela vida, me deu um emprego, me deu amor. Mas isso não vem ao caso. O negócio é que o doutor Cirilo é como um pai para mim, faz de tudo por mim. Me trata com tanto carinho. Acho que isso é o que vale da vida.
       Pois que voltemos à reunião. A minha gravata tava muito apertada. Eu estava quase sufocando naquela sala, e é porque ela tem ar condicionado,hein. Bem, eu estava com muito calor. Assinando papéis, lendo requisições, pedidos. De repente, doutor Cirilo entra apressado:
    - Tobias, cadê os relatórios que eu te pedi ontem?
    - Calma, doutor Cirilo, estão aqui em cima da mesa. Eu fiz para o senhor!
    - Todo mundo me pede calma nessa merda dessa empresa, mas ninguém faz nada para mim. Todos os dias, a mesma coisa. O jeito vai ser demitir!
    - Doutor Cirilo, o senhor está muito estressado.
    - Desculpe, garoto. Você é o que mais trabalha por aqui e eu vindo falar dos meus problemas para você.
       Eu percebi que o doutor Cirilo tinha algo de perturbador naquele dia. Ele estava realmente muito estressado. Levantei-me da cadeira, fui até onde ele estava sentado, em frente ao meu birô. Coloquei a minha mão de leve no ombro direito dele:
    - Pode contar comigo, doutor, para tudo. O senhor sabe que eu lhe tenho como um pai. Desde que papai morreu, que o senhor me dá todo apoio. Eu vou lembrar isso para sempre.
    - Eu sei, querido. Eu sei que posso contar com você. Eu apenas estou com uma sobrecarga de trabalho. Acho que vou tirar o resto do dia de folga.
       Aí tem coisa, falei para mim mesmo. Doutor Cirilo tirando folga e por causa de cansaço? Quase impossível de acontecer. Em mais de 6 anos naquela empresa, ele nunca havia tirado meia hora sequer de folga. Eu estranhei aquela atitude, e fechei comigo mesmo de passar mais tarde na frente da casa do doutor,fazer uma visita a ele.
       Ele saiu da minha sala e foi direto para o carro. Eu fiquei vendo pela persiana, que dava até o estacionamento. Fiquei imaginando o que tiraria o doutor da empresa por causa de cansaço. Fui até Rosana, a minha secretária, a fim de escavacar alguma notícia:
    - Bom dia, Rosana!
    - Boa tarde, doutor Lopes. Como vai?
    - Vou bem... ér, dona Rosana...
    - Senhorita, por favor!
    - Pois bem...Venha até a minha sala!
       Eu fui primeiro, abri a porta, sentei atrás do birô, na minha cadeira executiva. Rosana veio e sentou em frente a mim, no mesmo assento onde havia sentado o doutor:
    - Rosana, você sabe porque eu te chamei aqui?
    - Alguma coisa que eu fiz, doutor?
    - Não. Eu quero falar sobre o doutor Cirilo. Algumas informações.
    - Se eu puder ajudar doutor...
    - Você sabe o que se passa com ele?
    - Olhe doutor, não sou de me meter na vida de ninguém, mas uma coisa andam comentando nos corredores: Ele está muito misterioso!
    - Só isso?
    -Somente.
    - Ok! Obrigado Rosana.
       De nada serviu Rosana naquele momento. Minha cabeça agora estava a mil por hora. Passava das 3 da tarde, quando eu coloquei o meu terno por cima do ombro, afrouxei a gravata um pouco, desabotoei 2 botões da camisa, e desci para o carro, no estacionamento. Eu precisava ir na casa do doutor Cirilo para saber o que estava acontecendo. Entrei no carro, dei a partida. Eram 20 minutos até a casa do doutor. Chegaria logo. Coloquei Angra no cd player, e fui martelando a ideia na cabeça. Pensamentos sobre o doutor Cirilo vinham direto na minha cabeça. Na minha mente, ele estava doente, muito doente; outra hora, na mesma mente, ele estava era extasiado de tudo. O fato é que eu precisava saber.
       A casa estava com a porta da frente entreaberta. Estacionei o meu golf na calçada. Desci do carro. Nenhum barulho na rua. Abri novamente a porta do carro, depositei o meu terno lá. Eu tinha esquecido-o no meu ombro. Tranquei tudo e subi as escadinhas que davam acesso à casa do doutor. Tudo estava quieto demais. Apertei a campainha. Nada. Apertei novamente. Nada.Resolvi entrar na casa. Abri um pouco a porta, pus a cabeça para dentro, certifiquei-me que na sala não havia ninguém. Era a mesma casa de sempre. A televisão onde sempre esteve, deu até vontade de chorar. Fui entrando, entrando, e cada vez mais, até que uma voz lá de dentro chamou: “ Entre, meu filho, essa casa também é sua”. Era o doutor! Reconheci logo.
       - Doutor Cirilo, o senhor está bem?
    - Claro que sim. Agora feche a porta da frente. Eu sabia que você viria.
       Obedeci. Fechei a porta da frente. Passei a chave duas vezes para garantir. De novo, o doutor gritou lá de dentro: “ Eu estou no banheiro. Daqui a pouco eu saio”. Sentei-me no sofá. Uma demora danada. Eu sentei e levantei várias vezes ao longo de 40 minutos. Não aguentando mais, resolvi entrar mais um pouco na casa. Fui até a cozinha, servi um refresco que estava dentro da geladeira e tomei. Passei a mão na mobília, vi que estava empoeirada, passei um dedo no outro para tirar o pó. A porta do quarto aberta me chamou atenção. Fui entrando, sem delongas. Fui passando as mãos pelas paredes e entrando. O doutor estava no banho, dava para perceber o chuveiro ligado. A porta da suíte aberta, eu suava muito. Deitei na cama, abri uma velha revista que estava no criado mudo.
       Saiu enrolado numa toalha de algodão, eu me levantei, ele logo falou:
    - Nada melhor que um banho frio para acalmar,não acha?
    - Claro.
    - Não quer tomar um também?
    - Seria ideal, doutor...
    - Shhh! Doutor não, Cirilo.
       E foi logo me abraçando carinhosamente. Me cheirou no cangote. A mão fria na minha cintura. Eu recuei para a cama, ele veio atrás. Deitamos. Aquele corpo peludo de Cirilo, agora sem toalha, roçando em mim. No começo, confesso que hesitei um pouco. Mas depois, a situação foi ficando inevitável a ponto de eu e ele estarmos agarrados, loucamente. Um beijo atrás do outro, uma vontade danada. Ele afrouxou o nó da minha gravata, e eu fui tirando minha camisa. O doutor estava inspirado naquela tarde. Ele me beijava euforicamente, passava a mão no meu peitoral. Eu arranhava suas costas.
       Agora estávamos os dois nus, em cima da cama. Nos agarrando, nos amando. Todo o amor de pai que ele sentia por mim tinha virado aquilo tudo, mas na certa não era amor de pai desde o começo, era desejo. Tudo ficou claro naquela hora. Eu acariciava o seu pênis para cima e para baixo e ele continuava a me beijar. Ia me beijando, dizia que tava gostoso, pegou no meu pênis também.
       Estava com a boca no meu orgão genital, causando um enorme prazer em mim. Todo o problema do doutor era esse. Todo o estresse do doutor era falta de amor, de compreensão e de sexo. Íamos pelas 5 da tarde, agarradinhos, o seu corpo peludo em cima do meu, cada pelinho me desejando mais e mais. Fizemos de tudo naquela cama. Ele passava o membro no meu bumbum e aquilo tudo era novo para mim. Trocamos posições por várias vezes.
       Eram 7 horas da noite e nós ainda estávamos deitados, um agarradinho ao outro. Tomei coragem para falar:
    - Adorei o que aconteceu hoje, Cirilo.
    - Você é um amor, Tobias.
    - Desde sempre que você sentia isso por mim?
    - Sempre senti, mas sempre reprimi meu sentimento. Passava por você, via as suas namoradas e me matava de inveja. Hoje foi a gota. Hoje foi um dia maravilhoso, meu amor.
       Certo. Tinha sido maravilhoso para os dois. Mas eu não podia sair dali, daquela cena, sem tomar uma atitude. Afastei seu braço de mim, disse que ia  até o carro buscar um presente que eu tinha esquecido para ele, vesti-me, ele ficou esperando. Ainda lembro que me disse: “ Eu te amo,cara. Na certa, é uma coisa boa. Tudo que vem de você é bom”. Mas nem tudo era. Passei voado pela cozinha e pela sala, abri o carro. Abri o porta- luvas, achei o meu revólver que sempre deixei ali e não sabia quando ia precisar. Abri a coroa, coloquei duas balas. Eu ia dar um fim nisso tudo, eu tinha vergonha do que eu sentia, eu fiz de tudo para não sentir vergonha, mas não podia deixar aquilo por acontecido. Caminhei devagar, subi os degraus de acesso à casa, saltei pela sala. Dei duas voltas na porta, de chave, para nada ou ninguém entrar. Fui devagarinho, pela cozinha, entrando. O revólver em punho, baixo. Ia arrastando a mão esquerda pela parede, tenso.
       O doutor deu um grito e na mesma hora eu disparei. O lençol todo sujou de sangue. Ele não morreu, os dois tiros pegaram no peito cabeludo. Ele estava agonizando. Para me certificar da morte, ainda desferi oito murros no rosto dele e, por fim, enrolei um lençol no seu pescoço e amarrei bem.
       O doutor estava morto. Liguei para a polícia e fiquei sentado na beira da cama, esperando.
       Os policiais chegaram, confessei tudo. Matei, matei mesmo. Matei porque era mal chefe, pagava mal, reclamava muito. Saí da casa algemado, toda a rua veio olhar o fato. Eu seria condenado, na certa, mas , a maior condenação, seria a de nunca mais amar.
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