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Velas e velhas. Lágrimas e suor

  • sexta-feira, 11 de maio de 2012
  • Felipe D´Castro


  • Estávamos todos tristes. No centro da sala o caixão imenso. As velas e velhas a se derreterem. As velas comemoram aniversários e choram mortes, diria o poeta. O homem, com algodão enfiado em todos os buracos, morrera de algo cuja imaginação do leitor quiser. Não vim contar acessórios, mas a essência. A sala era pequena, pouca iluminação. Ouvia-se conversas chorosas, chiados, sussurros, mas ninguém que discursasse pelo homem morto. A viúva, dependurada sobre o marido, acabara de perder seu bem maior, seu ponto fixo, sua estrela em terra de penumbra. Chorava esmorecida e inconsolável, como todas as mulheres.
    Os dois filhos próximos ao caixão. Um rapaz alto, de trejeitos feminis, talvez um Ulisses em matéria de Penélope. Charmoso. A garota era mais simples, vestia muitos panos. Tinha uma feição fechada, rancorosa. Mas sua face era sublime, traços leves, plumáticos. Helena de jeans. Ambos em volta do caixão.
    O resto da família passava rápido pelo falecido, olhavam-no. Uns comovidos, outros satisfeitos. A pequena casa estava entupindo-se de pobres. Do lado de fora alguns pirralhos descamisados rindo. Assassinaram um bandido, um cadáver adiado, como diria um outro poeta. A morte assusta a todos, todavia os pobres parecem quebrar essa máxima, estrangulá-la com seus risos sem sentido. Ela não chorava. Ela era helênica, no entanto não chorava. Eu gosto de ver mulher chorar. Ela não chorava. Isso me preocupava profundamente. Imensamente profundo.
    Todas as mulheres estavam chorando, ela não. Ela não chorava. Isso me inquietava como palhaça face à plateia inerte. Mulher tem que chorar. Levantei-me de onde estava, caminhei para próximo do caixão. Falei alguma coisa com o rapaz charmoso. Falava bem. Fitei a moça, vi seus olhos helênicos, brancos, intocados com toda semântica. Branca, não como nuvem, não como leite, só branca. Apesar da roupa cobrir-lhe o corpo, vi seus seios juvenis, a graça da mocidade. Uns braços tão brancos e macios. Porque os toquei. Calma, eu disse, o momento é difícil, mas tudo pode voltar ao normal. Ela não me olhou, tampouco falou nada. Sei que é difícil perder alguém, mas depois se ajeita, ele vai pra um bom lugar, completei. Finalmente a menina olhou-me. Olhos cáusticos. Tanta vida em seus olhos, que parecia loucura a morte tão perto. Lábios rosados, súplices. Príamos aos meus lábios Aquiles. Você não quer descansar um pouco?, perguntei.
    Fomos à cozinha. Tomamos água. Via-a abrir a geladeira, buscar algo na parte de cima. Com os braços levantados e corpo estendido, rígido. Vi seus músculos tesos. Costas desenhadas, finalizadas com uma curva tão suave que o próprio Caravaggio não o faria. O jeans apertado contornava suas coxas. Eu teria que fazê-la chorar.
    Você não está triste? Um pouco. Mas seu pai morreu, certo? Já morreu faz tempo! Então esse não era seu pai? Não, não é isso, ele morreu pra mim. Por quê? Prefiro não falar. Por quê? Quem é você mesmo? Do pai a gente tem que gostar, não importa! Você não teve pai, não é mesmo? Garota, você tá me confundindo. Ah, é? É sim. Por quê? Quero fazê-la chorar! Como é? É, mulher tem que chorar! Você é louco!
    Por baixo da mesa pus minha mão sobre sua coxa, arrastei sobre seu jeans minha pele. Ela entendeu o recado. Estávamos a sós na cozinha. O eco dos prantos plantava em nós um espírito juvenil. Talvez possamos conversar melhor no quarto da mãe, ela disse. Foi muito fácil. Tinha que ser difícil.
    Entrando no quarto, parada à porta, titubeou. Empurrei-lhe pra dentro pondo meus lábios em seu ombro, subindo até a orelha, sugando seu medo. Seus olhos eram receosos. Tranquei a porta. Não havia mais volta. Ela ficou de frente pra mim. Por que você não gostava do seu pai? Porque ele não me queria...
    Joguei-a na cama, com força. Cai sobre ela devagar, pra que sentisse meu domínio. Senti sua respiração ao encontro de meu pescoço, até que desci a cabeça e encontrei seus lábios-rosas. Minhas mãos tinham movimentos próprios e dissociados de meu cérebro. Aos poucos, ia subindo sua primeira blusa, ela, rápida, fez com que a tirasse rápido. Ela queria algo ligeiro, eu queria fazê-la chorar. Tirei a segunda blusa e enfim vi seus seios alvos, pontudos, lanças monalísicas lisas. Já não sabia onde repousar a boca. Depois de muito (des)pensar, resolvi sugar seus seios brutamente, algo próximo da dor, imagino. Ela era forte. Eu sugava e ela me desabotoava a calça. Estava tudo tranquilo até que senti meu membro mais fraterno em sua coxa, pulsando. Larguei de imediato seus seios saborosos e me pus a tirar-lhe o maldito jeans. A calcinha veio junto, como ajuda do destino. Não havia um pelo em seu sexo. Olhei-a nos olhos por um instante, num diálogo mudo. Olhos safados, lábios mordidos, mãos no meu ombro, e eu desci com a língua escorregando sua barriga, até chegar na extensão rósea de seu prazer. Onde minha língua pôs sentido em sua boca. Gemia baixo a cada sucção. Massageava lento seu sexo, e ela pressionava-se contra seu corpo, com as mãos em minha cabeça, as pernas dobradas, pressionando meus ouvidos, seus gemidos altos, minhas mãos em sua face, meu fôlego acabando – por um gostoso motivo.
    Levantei-me já hirto, inflexível. Vira de costas, disse. Ela, ainda mole, virou sem rebelião. Pôs os joelhos na cama, mandei tirar. Quero que deite, ordenei. Ela deitou, com os seios no colchão. Vi tudo que queria. Ela de costas, subi na cama, deitei sobre ela, pra conseguir melhor me apoiar, suspendi o corpo. Abre as pernas um pouco, mandei. Pronto, agora você escolhe o que fazer, comentei. Ela segurou, e colocou devagar em seu sexo, fazendo-me deitar sobre ela, em um contato quase cem por cento. Apoiei-me apenas em uma perna e comecei a introduzir lentamente na garota que não chorava. Seu gemido começou a aumentar, ao passo que na sala começaram os cantos católicos. A ladainha estava formada. As velhas cobriam o som da menina. Pode gemer, gostosa, dizia baixo em seu ouvido. Aumentei um pouco o compasso do movimento, enquanto suas nádegas roçavam na minha virilha. Ela pôs os braços no meu pescoço, buscando minha boca em sua nuca, no que eu suguei-lhe bem a região dos ombros. Ela gemia, gemia mais. Vai delícia, tá gostoso? Tá sim, coloca tudo, vai! E eu bombava mais forte  mais rápido ligeiro,mais forte bombando bombando forte rápido ligeiro bombando forte rápido ligeiro bombando gemendo gritando forte rápido ligeiro bombando bombando bombando mais rápido, rápido... gememos ao mesmo instante, num orgasmo compartilhado.
    Ela jogou a face pra o colchão rapidamente. E enquanto eu tirava meu músculo de dentro do dela, pude ouvi-la chorar. Foi como se eu houvesse repetido o ato. Meu pai nunca me quis assim!, disse. Por que não? Não importa, mas me custou cinquenta reais.
    Daí por diante, leitor animado, a história é pouca. Do que lembro é apenas os policiais a baterem à porta. A garota algemada. Ela não chorava. Mas é como não dizem: se não chora por mal, chora por bem.

    Soneto para ti #1

  • sábado, 10 de dezembro de 2011
  • Mano













  • Morena de pele amorosa e amorada
    De fruta doce,  fina e saliente, charmosa
    De toque leve, suave deleite, formosa
    Olhos fortes e sinceros de mulata amorenada.

    Ah, se seus lábios falassem aos ventos
    Que careciam de lábios para beijar-te
    Mas que para que adormeças escarlate
    Só mesmo o calor e a vontade de meus beijos lentos

    Como o cavalgar à meia-noite
    E que o desejo me açoite
    Com sua corda sedosa.

    Como um espírito de amor
    Terei sempre ao meu dispor
    Tua boca venenosa!

    Lágrimas e suor. Líquidos e sussurros.

  • quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
  • Felipe D´Castro

  •        
             Sempre quis que não fosse ele. Mas o tempo é um bruxo mal, esperando nossos desejos na ânsia de revertê-los. Casamos há pouco. Os lençóis arrumados são provas do crime. Sobre a cômoda o despertador velho. Ele, já se arrumando para sair parece um anjo bruto, de asas de chumbo. Põe a gravata com a mesma delicadeza de uma pequena onça a brincar com seu irmão. A vida lhe era trabalho. Mas nem sempre o foi. Quando o conheci... naqueles tempos parecia mesmo que eu fazia parte de sua vida também.
      O sol espalhado pela sala. A luz espelhando-se em cada metálico detalhe do lugar. Um vento voltívolo invade o lugar, de instante em instante. Escravocratamente preparo seu café entre os martírios dos dias. Passa por mim. Arrisco um beijo, um resquício de matrimônio. Ele esquiva a boca e toca minha bunda, seu gesto mais romântico. Tudo pronto, pergunta. Quase tudo, respondo. Nossos diálogos são rápidos. Haikais argumentativos? Penso que não, que só são porque só podem ser desse jeito. Não há muito o que se falar depois de cinco anos de casamento. Não entre nós.
       Pedro nunca foi de falar muito mesmo, mas de uns anos pra cá anda mais quieto, mais fechado. Tudo que penso é em outros lábios o tocando. E outros lábios fazendo-o esquecer-me... oh, céus! melhor não pensar nessas coisas. Lobo calado, à distância, não põe medo em ninguém. Ele trabalha o dia todo. Chega em casa cansado, suado, esbaforido, esgarçado. Os homens têm uma relação de ódio com seus empregos, e, por osmose, passam a ter com suas mulheres. Busco o carinho de antigamente em todos os seus gestos. Mas como um arqueólogo que a nenhum osso encontra, procuro já sem ânimo em todo seu deserto um vestígio de carícia, de amor. Já vai, amor? pergunto. Ele me responde seco, sim. Dá-me um beijo no rosto, segura minha cabeça em suas mãos, e completa, te amo. Ele sempre diz isso. Por isso me pergunto se amor tem de ser provado. Vai ver amor é assim mesmo, só no plano das ideias.
         Nunca quis trabalhar. Ele recebe bem. Temos uma vida boa, rica. Semana passada compramos até um colchão novo. O outro estava meio ruim, molas soltas e tudo. Após despedir-se sai pela porta. Não olha pra trás. Nunca esquece nada. Quando esquece não volta. Voltar atrás nunca fez parte da vida de Pedro. Duas horas e a campainha toca. Finalmente alguém com quem eu possa conversar.
    Oi, Marina, vim te visitar. Lúcia, que bom te ver! Lúcia vinha visitar-me de pouco em pouco. A casa já estava toda arrumada, tudo em seu devido lugar. Fechei as cortinas e a sombra deu um tom Caravaggio à sala. E aí, esperando visitas? perguntou. Ora, mas por quê? Está tudo tão arrumado! ela disse. Ah, Lúcia, é assim mesmo, agora tenho tempo pra cuidar mais da casa. Você sabe, Pedro e eu não passamos mais tanto tempo juntos, ele quer ficar mais distante, quer trabalhar mais, temo que seu irmão não me queira mais! Marina, Marina, como não te querer? Esta frase, confesso, foi estranha por parte dela. Realmente meu marido parecia cada dia mais longe, cada dia menos meu, mas nunca refleti sobre o que posso representar pros outros. Você faz os outros pecarem, Marina! e riu. É sério, Marina, com esse corpo você poderia enciumar o Pedro rapidinho. Isso é jogo baixo, Lúcia. Como assim? deu uma gargalhada ainda maior. Os homens são tolos, são bichos! Querem ser proprietários de tudo quando gostam. E claro que a carne é o que mais lhe atraem. Somos seus alvos preferidos, querida. Aquele pensamento de Lúcia não me pareceu tão estranho.

             E você com esse corpo... e tocou-me de leve no rosto. Com essa pele macia, branquinha como espuma... Lúcia aproximara-se de mim, já comecei a sentir o ar que saia de sua boca, gelei. Ela rapidamente, sem conversa, puxou as alças da minha blusa, deixando meus seios à amostra. Beijou meu rosto. Sim, eu fiquei parada. Alguma mulher já te beijou de uma maneira tão sensual que te fez esquecer de mover-se? Comigo aconteceu justamente isso. Seus lábios eram moles, morenos, lábios doces de ameixa. Escorregaram sobre meu rosto va-ga-ro-sa-men-te... as mãos tocando meu seio. Movimentos circulares num cena tão disforme. De súbito vem-me à cabeça a imagem de Pedro. E as mão sobre os seios, Círculos de prazeres. Dedos finos, pele veludosa. Seus lábios eram, talvez, a carícia que tanto procurava. Meu Deus, traição? pensei. Levou a boca até os seios e, abotoando seus olhos nos meus, pousou a língua sobre meus seios rijos... sua língua passeava sobre mim enquanto, surpreendendo-me, aterrisso minhas mão sem rumo em seu quadril de menina. Pedro, o que pensar? Traição? Àquele momento meus sussurros começam a escapar. Suas mãos, sua língua, tudo me fazia sentir de novo o gosto do prazer. Ela põe mais força. Começa a sugar meu colo, e a cada sucção, mais força ponho em seu quadril. Minha Rita Baiana. Ela sugava-me como um filho à mãe. Estrategicamente, deita-me sobre o sofá. Continuo sendo a mulher. Continuo sendo a Marina de todos os tempos. Entretanto, penso em mudar ali. Filosoficamente encantada, torno-me o Pedro que quero. Com força puxo Lúcia. Nossos seios como dois pontões sob os tecidos molhados de suor. Ela gosta. Dá o meio sorriso das bacantes. Não me controlo e faço com que nossas línguas molhadas enrosquem-se como duas cobras. Serenissimamente a possuo agora. Deitou-a no sofá, olho-a fixamente e construímos um acordo de silêncio em um silêncio mútuo. Estendo-lhe os braços para cima. Porque mulheres mostram seu corpo ao esticar os braços. Seus seios me parecem mais redondos do que de costume. Meço minha boca ao seu colo, e concluo que é ideal. Sugo o seio numa vingança doce. Num canibalismo branco de uma mulher relegada. Desabotoou lento sua bermuda. A cada botão uma mordida ao seio. Ela espremia-se em sussurros baixos. Meus dentes, ariscamente, animalescamente, mordiam-lhe seu dorso tenaz, ao passo que seu maior encanto iria aparecendo. Sugar o seio de uma mulher a faz estremecer. Ela agarrava-me, puxava-me pra si. Era minha mulher. Como a queria possuir naquele momento. Pedro que se dane! Ainda mais, com certeza há outro seio em que Pedro queira colar a boca! Dane-se! Isso, dane-se! E ela passeava as mãos por cima das minhas costas, descia até as coxas. Acariciava-me como um homem. Suas mãos eram macias e fortes. Cravou as unhas em minha coxas quando suguei-lhe mais forte abaixo do umbigo. Havia descido. Agora brincava com sua barriga. E os seios ainda lá, duros, rijos, tenazes. Tirei por fim sua bermuda. Algo de molhado me surpreendia. Estava sedenta. Estava ávida como um cão esfomeado... e ela, minha cadelinha, possuía uma bela cauda. Vi já seus dedos delgados penetrarem len-ta-men-te minha saia. Senti seus carinhos já úmida. Úmidas, ambas. Ponho a mão na alça fina de sua calcinha, puxo-a de leve. Ela observa atentamente com os olhos sôfregos e a boca mais ainda. Ela quer me ter. Vejo lisa sua região mais bela. Sem nenhuma marca de fealdade. De repente sua pele morena entra em contraste com meus dedos brancos. Alguém bate à porta.

    Sob os lençóis

  • quarta-feira, 23 de novembro de 2011
  • Felipe D´Castro


  • Bem olhava pra mim a minha dama...
    Nós dois, entre os lençóis, por sob as luzes,
    E nossas pernas, como duas cruzes,
    Confusas, misturadas, já em chamas.

    Impiedosamente a boca chama,
    E, sôfrego, reparo na saúde
    De seus lábios carnudos, rogando: use!
    E somos dois famintos sobre a cama...

    Mãos minhas vão comendo aquela imagem
    E a língua a requerer a paisagem
    E os olhos a tocar o humano inferno!

    Toco os lençóis de seda salientes
    Sobre as coxas da moça que já sente
    O pulsar do meu músculo mais fraterno!

    A LUA EM TAMBAÚ

  • Mano
  •     


             A praia à noite é tão fria, dizia. E os dois caminhavam pela areia de Tambaú. Passava das 11 da noite, quando ele a olhou de baixo para cima,sorriu. Ela fez uma cara de curiosidade e deixou escapar um: “o que foi?”.”Você está tão diferente, Dani!”. Ela parou um pouco. Esperou uma brisa leve passar por ali. A brisa veio branda e rasgou-se aos cílios da moça. O rapaz continuava a observar sua silhueta. Pararam embaixo de uma barcaça que estava na areia.
         Ela olhou para ele e sorriu. Ele fingindo não entender o que ela queria. Queria amor, queria abraço, queria sexo. Ele atreveu-se, começou a desabotoar o short dela. Ela sorria mais ainda, e mordia os lábios. Ele agora baixava o zíper, duro com o tempo e a maresia de suas caminhadas noturnas. Agora ela levantou-se, ainda sorrindo e mordendo os lábios, e baixou completamente o short.
          Ele olhava meio que espantado para todas as reações dela. Algo novo estava começando em sua vida. Estava deixando a meninice de lado. Estava abrindo a sua vida para o amor. Ficou de pé, ela massageando em cima de seu short. Ele fechou os olhos e ensaiou um gemido baixinho.Ela agora estava só de calcinha. A praia estava deserta. Ele sentou-se, e ela continuava a massagem.
         Ela parou. Levantou a blusa num gesto rápido, o sutiã rosa. Puxou o rapaz para si e beijou-o loucamente. A lua filmava a cena que acontecia embaixo da barcaça erguida. Nenhum barulho na rua. Todos dormiam, ou fingiam estar dormindo. Tambaú apenas abrigava os dois. Ele passou a mão pela cintura dela. Atracaram-se, vestidos, e rolaram pela areia debaixo da
    barcaça. A vontade de ambos, a sede pela transa energizava o local. A barcaça não fazia um só movimento. Ela agora, enquanto beijava-o, desabotoava o sutiã por trás. Ele na ansiedade de ver o que tinha por baixo da peça. Ela se apressando mas o botão era teimoso. Até que o sutiã soltou-se, e os seus lindos seios ficaram à mostra. Seios de menina mulher, como que crescidos a pouco. Ele pegou-os com as mãos, apalpou-os. Ela fechando os olhos e gemendo baixinho.
          O calor que aquela cena causava era tremendo. O mormaço fez com que suassem à beira da praia. O mar ia e vinha ver o que estava acontecendo. Ele já havia tirado o short. Ela em cima dele, ralando o seu corpo no dele. Os dois encaixados. Ela ficou de pé, soltou alguns beijinhos para ele, e baixou a calcinha. Ele olhou, foi até lá, ensaiou um beijo. Cheirou. Tudo era novo ali. Passou os seus lábios nos lábios dela. E ela mordia os lábios que ele não beijava. Gemia alto, gemia, gemia, gemia. Ele tirou a cueca. Ficou de pé. Beijaram-se loucamente. Ela agachou-se, pegou o membro já excitado, e colocou-o na boca. Ele gemeu alto, gemeu, gemeu um gemido que nunca escutou alguém mencionar nem nas cenas mais picantes. Ela ia e vinha, com a boca aberta.
           Pegaram-se um em cima do outro, ambos gemendo. Ela fazia um movimento para frente e para trás e ele também. Iam amando-se pelas 2 da manhã, a lua filmando, o mar olhando. 
           
    Quando deram fé, o sol já havia se feito. Estavam nus embaixo da barcaça. Os pescadores passavam e olhavam. Os velhos também fitavam. Tudo ali era novo para ele. Ela não, ela já sabia de muita coisa. Ela havia mesmo crescido e mudado. Ele não notara isso até aquela noite. Daquele dia em diante, ele quereria muitas barcaças, ah se quereria...

    Sexo num ciclo vicioso

  • segunda-feira, 21 de novembro de 2011
  • Mano
  • Acordei com as batidas na porta do meu apartamento. Admirei-me pois o porteiro deixou que subisse. Na certa era conhecido.Mandei um “Já vai” lá de dentro, do quarto. Fui devagarinho até a porta, olhei para baixo. Vi uma sombra de pés por entre o vão que fica, entre a porta e o chão. Pés de alguém que queria falar comigo, claro. Olhei pelo olho mágico, aflita. Para quê? Era só o meu primo Henrique!
         Abri a porta, toda animada. Me atirei num longo abraço apertado em cima de Henrique. Ele sorrindo, meio suado. Vinha caminhando desde a casa de Tia Ninha até aqui. Henrique era grande, forte. Muito mulherengo, eu sabia. Mas a que devia essa visita? Dei-lhe um beijo no rosto, um cheiro no pescoço, que homem cheiroso. Ele nada ainda tinha falado.
        Entrou. Esticou os braços, com um buquê de flores, na minha direção:
    - É que faz tanto tempo que a gente não se vê, Luiza. Eu precisava olhar para você, saber como você está. Essas coisas. Tome, isso é teu!
    - Obrigada, primo. Eu até não acreditei quando vi você pelo olho mágico. É que o porteiro nem avisou,nem nada.
    - Seu Pedro? Ah, eu conheço seu Pedro assim,ó. Pra ele, eu já sou de casa. Mas, eu tou te importunando, prima?
    - Que é isso, primo. Faz tanto tempo que a gente não se vê. Eu fico até feliz com a sua visita. Você bebe algo?
    - Eu aceito uma cerveja.
    - Espera só um segundo, eu vou pegar na geladeira.
           Saí da sala e deixei Henrique sentado no sofá. Ele admirava a casa, olhava para tudo. Abri a porta da geladeira, abri o congelador, tirei uma lata de cerveja de dentro. Quando ia fechando a geladeira, olhei pelo espelho que tem na caixa de legumes e notei que eu estava só de calcinha e blusa. Que vergonha! A minha alegria fora tanta ao ver Henrique que eu tinha até esquecido de pôr uma roupa decente. Mas agora era tarde! Tinha de levar a cerveja até ele. Parece até que ele não se importava com aquilo, agia tão naturalmente.
         Cheguei na sala, Henrique estava de pé, uma das mãos metidas no bolso, a outra segurava um porta-retratos onde havia uma foto minha com ele, que ainda estava nas recordações:
    - Quanto tempo,hein,essa foto, priminha?
    - É. Há anos que ela está aí.
    - Cinco anos, cinco carnavais, cinco natais...
    - É, muito tempo,não acha?
    - Muito mesmo. Você mudou tanto.
          Ah, eu tinha mudado mesmo. Mudei meus gostos, minhas preferências, mudei de vida. Henrique sentiu isso. Olhou-me um pouco tempo, depois sentou-se. Alguns segundos se passaram e ele nem aí pra mim. Eu realmente estava querendo algo com aquele menino ali mesmo, afinal, nem todo dia o destino manda um homem daquele passear no meu apê. Ele lá, com aquela bermuda cinza e a camiseta preta. Eu só de blusinha e calcinha. A certa altura, ofereci outra bebida:
    - Outra cerveja,primo?
    - Acho que essa está de bom tamanho.
    - Não me faça uma desfeita dessa,rapaz.
    - Você sabe como eu fico quando eu bebo.
    - Você ta com medo de não resistir a mim,não é?
          Agora ele entendia o que realmente eu queria. Acho que nós dois queríamos. Aquela visita surpresa do meu primo não era assim, a toa. Se ele estava ali, trazendo rosas, e com aquela desculpinha esfarrapada. Olhei para Henrique com uma cara de safadesa que só eu sei fazer, e comecei:
    - Calor,não é?
    - Realmente, o tempo está quente.
    - É. Eu não consigo ficar assim. Sou muito calorenta.
        Tirei a calcinha. Sim, tirei. Ele ficou me olhando algum tempo, depois eu fui até ele, e dei-lhe um beijo no rosto. Sentei do lado dele, no sofá. E fiquei olhando para ele, esperando algum tipo de reação. Eu sentia que ele estava doido para me abocanhar, mas alguma coisa o impedia, talvez algum tipo de valor moral familiar, não sei. Ele era galinha, mas com família não mexia. Não estava nem aí para isso. Queria mesmo aquele cara:
    - Então...
    - Eu não tou entendendo, prima.
    - Claro que está.
    - Estou. Mas não sei se é certo
    - Claro que é certo. Eu estou doida por você e você aí,babando por mim. O que é que tem de tão errado nisso?
    - Você tem razão.
           Ui! Eu estava coberta de razão. Subi nele, sentei no colo. Fui logo beijando. Ele com a mão no meu bumbum, eu dando aqueles gemidinhos baixinhos e ao mesmo tempo o beijando.Eu tinha muito amor pra dar e ele muito tesão pra comer. Comecei a pular um pouquinho no colo dele. Como Henrique era másculo. Ele começou a tirar a camiseta, eu me ajeitando no colo. O calor era grande, estava derretendo. Tirei minha blusa. Henrique me babou toda. Eu gemia, e queria mais. Ele também. Fomos querendo um ao outro pelas horas.
          Ele levantou-se, brusco. Uh, sexo selvagem, pensei. Tirou o short, a cueca. Tapou a minha boca com a mão. Que gostoso. Ficamos ali, no sofá, por vários minutos;por várias posições;por vários prazeres. Até que ele olhou para o relógio, viu a hora:
    - Minha nossa senhora, Luiza, eu estou atrasado.
    - não, fica mais um pouco.
    - Não dá. Se eu não for agora pra casa, a Silvana vai descobrir.
    - Quem é Silvana?
    - Ninguém. Deixa pra lá.
          Eu fiz força para não chorar. Nada daquilo significava pra ele. Era apenas sexo, sexo. Eu também encarava como sexo, sexo. Mas ainda que fosse apenas sexo, era entre nós dois, eu e Henrique. Ele levantou-se, colocou toda a roupa, o cabelo arrepiado. Meu Henrique indo embora.
        Fui tentar dormir. Relaxar. Aquilo ali estava tão recente, Henrique saiu muito apressado depois de anos sem me ver.  Tudo bem. Deitei na cama, e agarrei no sono, sono bom...
        Acordei com as batidas na porta do meu apartamento. Admirei-me pois o porteiro deixou que subisse. Na certa era conhecido.Mandei um “Já vai” lá de dentro, do quarto. Fui devagarinho até a porta, olhei para baixo. Vi uma sombra de pés por entre o vão que fica, entre a porta e o chão. Pés de alguém que queria falar comigo, claro. Olhei pelo olho mágico, aflita. Para quê? Era só o porteiro, seu Pedro!

    Mudanças

  • sábado, 19 de novembro de 2011
  • Mano



  • Eu mudei de ramo
    Eu mudei de rima
    Eu mudei de mãos
    Eu mudei de vida

    Mãos de patrões
    Correm meus lábios
    Enquanto canções
    Cobrem-me os lábios.

    Eu mudei de firma
    Eu mudei de forma
    Eu mudei de minha
    Para deles

    Tudo deles
    Cabeça, corpo, alma
    Eu mudei de alvoroço
    Para calma

    Mudei de cama
    Mudei de lençol
    Mudei de modelo
    Para jogador de futebol

    Mas não mudei de gente
    Para bicho
    Se outrora mudar,
    Mudo pra lixo!

    Lânguida Dama

  • Felipe D´Castro


  • Chegou. Os tornozelos sempre à amostra.
    Lábios de carne pura, brancos dentes,
    Um batom vermelho, inconseqüente,
    Nos olhos a luxúria que se mostra...

    Veio. E as veias minhas todas tortas
    A pulsarem emaranhadamente
    Sob minha pele úmida e morrente
    Como um prisioneiro a espreitar a porta...

    Sentou. E penetrou-me uma poesia
    De versos concretos como nas máquinas
    E nos trens, e nas tabernas vazias...

    Suou. Vai e vem enfurecido tens...
    E ante tua performance acrobática
    Esqueço de versos, tabernas e trens.


    Doutor Cirilo

  • Mano
  •      Estava na mesma reunião estúpida do trabalho. Aquela monotonia, papéis na minha mesa a fim de serem lidos e assinados. Eu sempre fui o cara que despachava a carga para fora do país. Consegui esse emprego por intermédio de papai, Augusto Noberto Lopes, a quem o doutor Cirilo Guedes sempre teve paixão. Papai era um cara honesto, trabalhador. Eu nada tive de reclamar do meu pai, nesse pouco de vida em que passamos juntos. Dos meus 17 até os 22, papai viveu ao meu lado. Quando ele morreu tudo desabou. Quase entro em uma depressão profunda. Mas o doutor Cirilo me acolheu em sua própria casa, me deu comida, me deu uma bela vida, me deu um emprego, me deu amor. Mas isso não vem ao caso. O negócio é que o doutor Cirilo é como um pai para mim, faz de tudo por mim. Me trata com tanto carinho. Acho que isso é o que vale da vida.
       Pois que voltemos à reunião. A minha gravata tava muito apertada. Eu estava quase sufocando naquela sala, e é porque ela tem ar condicionado,hein. Bem, eu estava com muito calor. Assinando papéis, lendo requisições, pedidos. De repente, doutor Cirilo entra apressado:
    - Tobias, cadê os relatórios que eu te pedi ontem?
    - Calma, doutor Cirilo, estão aqui em cima da mesa. Eu fiz para o senhor!
    - Todo mundo me pede calma nessa merda dessa empresa, mas ninguém faz nada para mim. Todos os dias, a mesma coisa. O jeito vai ser demitir!
    - Doutor Cirilo, o senhor está muito estressado.
    - Desculpe, garoto. Você é o que mais trabalha por aqui e eu vindo falar dos meus problemas para você.
       Eu percebi que o doutor Cirilo tinha algo de perturbador naquele dia. Ele estava realmente muito estressado. Levantei-me da cadeira, fui até onde ele estava sentado, em frente ao meu birô. Coloquei a minha mão de leve no ombro direito dele:
    - Pode contar comigo, doutor, para tudo. O senhor sabe que eu lhe tenho como um pai. Desde que papai morreu, que o senhor me dá todo apoio. Eu vou lembrar isso para sempre.
    - Eu sei, querido. Eu sei que posso contar com você. Eu apenas estou com uma sobrecarga de trabalho. Acho que vou tirar o resto do dia de folga.
       Aí tem coisa, falei para mim mesmo. Doutor Cirilo tirando folga e por causa de cansaço? Quase impossível de acontecer. Em mais de 6 anos naquela empresa, ele nunca havia tirado meia hora sequer de folga. Eu estranhei aquela atitude, e fechei comigo mesmo de passar mais tarde na frente da casa do doutor,fazer uma visita a ele.
       Ele saiu da minha sala e foi direto para o carro. Eu fiquei vendo pela persiana, que dava até o estacionamento. Fiquei imaginando o que tiraria o doutor da empresa por causa de cansaço. Fui até Rosana, a minha secretária, a fim de escavacar alguma notícia:
    - Bom dia, Rosana!
    - Boa tarde, doutor Lopes. Como vai?
    - Vou bem... ér, dona Rosana...
    - Senhorita, por favor!
    - Pois bem...Venha até a minha sala!
       Eu fui primeiro, abri a porta, sentei atrás do birô, na minha cadeira executiva. Rosana veio e sentou em frente a mim, no mesmo assento onde havia sentado o doutor:
    - Rosana, você sabe porque eu te chamei aqui?
    - Alguma coisa que eu fiz, doutor?
    - Não. Eu quero falar sobre o doutor Cirilo. Algumas informações.
    - Se eu puder ajudar doutor...
    - Você sabe o que se passa com ele?
    - Olhe doutor, não sou de me meter na vida de ninguém, mas uma coisa andam comentando nos corredores: Ele está muito misterioso!
    - Só isso?
    -Somente.
    - Ok! Obrigado Rosana.
       De nada serviu Rosana naquele momento. Minha cabeça agora estava a mil por hora. Passava das 3 da tarde, quando eu coloquei o meu terno por cima do ombro, afrouxei a gravata um pouco, desabotoei 2 botões da camisa, e desci para o carro, no estacionamento. Eu precisava ir na casa do doutor Cirilo para saber o que estava acontecendo. Entrei no carro, dei a partida. Eram 20 minutos até a casa do doutor. Chegaria logo. Coloquei Angra no cd player, e fui martelando a ideia na cabeça. Pensamentos sobre o doutor Cirilo vinham direto na minha cabeça. Na minha mente, ele estava doente, muito doente; outra hora, na mesma mente, ele estava era extasiado de tudo. O fato é que eu precisava saber.
       A casa estava com a porta da frente entreaberta. Estacionei o meu golf na calçada. Desci do carro. Nenhum barulho na rua. Abri novamente a porta do carro, depositei o meu terno lá. Eu tinha esquecido-o no meu ombro. Tranquei tudo e subi as escadinhas que davam acesso à casa do doutor. Tudo estava quieto demais. Apertei a campainha. Nada. Apertei novamente. Nada.Resolvi entrar na casa. Abri um pouco a porta, pus a cabeça para dentro, certifiquei-me que na sala não havia ninguém. Era a mesma casa de sempre. A televisão onde sempre esteve, deu até vontade de chorar. Fui entrando, entrando, e cada vez mais, até que uma voz lá de dentro chamou: “ Entre, meu filho, essa casa também é sua”. Era o doutor! Reconheci logo.
       - Doutor Cirilo, o senhor está bem?
    - Claro que sim. Agora feche a porta da frente. Eu sabia que você viria.
       Obedeci. Fechei a porta da frente. Passei a chave duas vezes para garantir. De novo, o doutor gritou lá de dentro: “ Eu estou no banheiro. Daqui a pouco eu saio”. Sentei-me no sofá. Uma demora danada. Eu sentei e levantei várias vezes ao longo de 40 minutos. Não aguentando mais, resolvi entrar mais um pouco na casa. Fui até a cozinha, servi um refresco que estava dentro da geladeira e tomei. Passei a mão na mobília, vi que estava empoeirada, passei um dedo no outro para tirar o pó. A porta do quarto aberta me chamou atenção. Fui entrando, sem delongas. Fui passando as mãos pelas paredes e entrando. O doutor estava no banho, dava para perceber o chuveiro ligado. A porta da suíte aberta, eu suava muito. Deitei na cama, abri uma velha revista que estava no criado mudo.
       Saiu enrolado numa toalha de algodão, eu me levantei, ele logo falou:
    - Nada melhor que um banho frio para acalmar,não acha?
    - Claro.
    - Não quer tomar um também?
    - Seria ideal, doutor...
    - Shhh! Doutor não, Cirilo.
       E foi logo me abraçando carinhosamente. Me cheirou no cangote. A mão fria na minha cintura. Eu recuei para a cama, ele veio atrás. Deitamos. Aquele corpo peludo de Cirilo, agora sem toalha, roçando em mim. No começo, confesso que hesitei um pouco. Mas depois, a situação foi ficando inevitável a ponto de eu e ele estarmos agarrados, loucamente. Um beijo atrás do outro, uma vontade danada. Ele afrouxou o nó da minha gravata, e eu fui tirando minha camisa. O doutor estava inspirado naquela tarde. Ele me beijava euforicamente, passava a mão no meu peitoral. Eu arranhava suas costas.
       Agora estávamos os dois nus, em cima da cama. Nos agarrando, nos amando. Todo o amor de pai que ele sentia por mim tinha virado aquilo tudo, mas na certa não era amor de pai desde o começo, era desejo. Tudo ficou claro naquela hora. Eu acariciava o seu pênis para cima e para baixo e ele continuava a me beijar. Ia me beijando, dizia que tava gostoso, pegou no meu pênis também.
       Estava com a boca no meu orgão genital, causando um enorme prazer em mim. Todo o problema do doutor era esse. Todo o estresse do doutor era falta de amor, de compreensão e de sexo. Íamos pelas 5 da tarde, agarradinhos, o seu corpo peludo em cima do meu, cada pelinho me desejando mais e mais. Fizemos de tudo naquela cama. Ele passava o membro no meu bumbum e aquilo tudo era novo para mim. Trocamos posições por várias vezes.
       Eram 7 horas da noite e nós ainda estávamos deitados, um agarradinho ao outro. Tomei coragem para falar:
    - Adorei o que aconteceu hoje, Cirilo.
    - Você é um amor, Tobias.
    - Desde sempre que você sentia isso por mim?
    - Sempre senti, mas sempre reprimi meu sentimento. Passava por você, via as suas namoradas e me matava de inveja. Hoje foi a gota. Hoje foi um dia maravilhoso, meu amor.
       Certo. Tinha sido maravilhoso para os dois. Mas eu não podia sair dali, daquela cena, sem tomar uma atitude. Afastei seu braço de mim, disse que ia  até o carro buscar um presente que eu tinha esquecido para ele, vesti-me, ele ficou esperando. Ainda lembro que me disse: “ Eu te amo,cara. Na certa, é uma coisa boa. Tudo que vem de você é bom”. Mas nem tudo era. Passei voado pela cozinha e pela sala, abri o carro. Abri o porta- luvas, achei o meu revólver que sempre deixei ali e não sabia quando ia precisar. Abri a coroa, coloquei duas balas. Eu ia dar um fim nisso tudo, eu tinha vergonha do que eu sentia, eu fiz de tudo para não sentir vergonha, mas não podia deixar aquilo por acontecido. Caminhei devagar, subi os degraus de acesso à casa, saltei pela sala. Dei duas voltas na porta, de chave, para nada ou ninguém entrar. Fui devagarinho, pela cozinha, entrando. O revólver em punho, baixo. Ia arrastando a mão esquerda pela parede, tenso.
       O doutor deu um grito e na mesma hora eu disparei. O lençol todo sujou de sangue. Ele não morreu, os dois tiros pegaram no peito cabeludo. Ele estava agonizando. Para me certificar da morte, ainda desferi oito murros no rosto dele e, por fim, enrolei um lençol no seu pescoço e amarrei bem.
       O doutor estava morto. Liguei para a polícia e fiquei sentado na beira da cama, esperando.
       Os policiais chegaram, confessei tudo. Matei, matei mesmo. Matei porque era mal chefe, pagava mal, reclamava muito. Saí da casa algemado, toda a rua veio olhar o fato. Eu seria condenado, na certa, mas , a maior condenação, seria a de nunca mais amar.
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